CERIMÔNIA
DE 30 ANOS DE ENTRADA NA MARINHA DO BRASIL |
| O ano era 1974, o mês...fevereiro. Suspendemos da Praça Barão de Ladário, sede do 1º Distrito Naval. Éramos quase duas centenas de jovens idealistas distribuídos nos ônibus da EVAL, rumo a Angra dos Reis. Nosso primeiro "comboio", portanto, foi terrestre, e foi nele mesmo que aprendemos a primeira palavra do linguajar naval "MAREAR". Quem não se lembra do "catanho" que recebíamos ao embarcarmos nos ônibus da Eval? Certamente ninguém tem saudades daquela garrafinha de laranjada, acompanhada por um sanduíche de mortadela! No caminho para Angra, os "timoneiros", devido à sinuosidade da derrota, só conseguiam desenvolver o "Plano de ZIG-ZAG de pernadas curta", para desconforto geral dos então alunos do Colégio Naval. Aquela primeira viagem foi um misto de descontração e nervosismo, porém transcorrida dentro da normalidade. Chegávamos, enfim, ao "Porto" da nossa primeira atracação – O Colégio Naval. Essas palavras, já conhecidas de todos, representam o início da longa jornada dos 30 anos de convívio, amizade e outros sentimentos nobres da nossa turma, eternizados na placa que se encontra afixada no pátio interno do nosso querido Colégio Naval, com os seguintes dizeres escritos em letras de bronze: “Nó marinheiro que nos uniu! Enseada de águas tranqüilas que nos preparou para todos os mares”. Naquela época, para jovens de cerca de 15 anos, cheios de vida e de ideais, por várias vezes tivemos sentimentos e momentos em que as águas não eram tão tranqüilas e amistosas, o período de festival de provas, os exercícios diários, os trotes, a árdua rotina, o internato de 2 semanas com o sacrifício do afastamento da família e até alguns tipos de privações, eram conseqüência da concentração dos estudos do 2º grau feito em 2 anos. Isso para jovens ansiosos por viver, eram momentos de tormenta e por vezes difíceis de serem entendidos. Hoje, decorridos mais de 30 anos, entendemos e temos a grata certeza que essa Enseada, em forma de um semicírculo, rodeada pelo Morro de São Bento, com uma larga faixa de areia branca, representa para nós, mais do que águas tranqüilas, e sim um porto bem abrigado e de excelente fundeadouro, que nos deu desenvolvimento intelectual e físico, e preparou então jovens marinheiros para a vida no mar. Ao completarmos 30 anos de entrada na Marinha do Brasil, temos o privilégio e o orgulho de novamente estarmos juntos para compartilharmos, com nossos familiares e amigos, mais um momento inesquecível em nossas vidas. Relembrar, refletir... esta é a hora. Ao retornarmos hoje ao Colégio Naval, formados ao lado do Busto do Almirante Baptista das Neves, coincidentemente e curiosamente inaugurado em 1914, pelo então Ministro da Marinha, Almirante-de-Esquadra Alexandrino de Alencar, que dá origem ao nome da nossa Turma, todos nós, bem como as pessoas que conosco conviveram naquela época, e que se encontram aqui presentes, prestigiando esse importante evento, vemos passar, como as imagens de um filme, as lembranças inesquecíveis dos momentos vividos aqui há 30 anos atrás. Essa oportunidade nos faz recordar e porque não, desfrutar novamente, das inúmeras passagens convividas, ombro a ombro e passo a passo, neste lugar especial, desde a partida do nosso comboio terrestre da Praça Barão de Ladário, em fevereiro de 1974, rumo à essa bela Enseada Baptista das Neves. Quem não se lembra dos veteranos, de bermuda cinza, com sapatos e meias pretas, trajes julgados ridículos, nos aguardando para nos transformar em alunos do Colégio Naval. E das duas cabines telefônicas, do pátio interno, hoje peças de museu, único meio pelo qual podíamos receber, sedentos, notícias da família, amigos e namoradas. Certamente que hoje, a chegada dos celulares, tornam hilárias as brigas pela vez, que ocorriam durante as horas do “estudo obrigatório”. Não sabemos como hoje, alunos e aspirantes lidam com tais situações, mas seguramente a tecnologia do presente não nos teria proporcionado, no passado, os sentimentos indescritíveis a que éramos submetidos nos reencontros com nossos familiares, amigos e especialmente com as namoradas, após superarmos, muitas das vezes incomunicáveis, os longos e sacrificados “Dias de Haja Saco” (DHS). Embora não necessariamente um avanço tecnológico, o romantismo dos Bailes de Marinha (“Bravo Mike”), contrasta com o “ficar” dos dias de hoje. De certo, a quantidade de namoradas que a prática do “ficar” propicia, não se compara ao prazer da conquista, e dos “debriefings” após os “Bravo Mikes”, onde se comentava em confidência, até o cheiro inesquecível do perfume, daquelas que nos elegeram para namorados. Orgulhosos, podemos lembrar nunca ter sido necessário mostrar nossos músculos numa conquista proveniente de nossas festas, pois com toda a certeza não fomos pioneiros de comportamentos pit boys. Nosso alvo era único, nossas armas apenas palavras doces, ditas a menos de um palmo, cujos efeitos nem sempre eram bem sucedidos, mas os sucessos e insucessos, quando contados no debriefing, talvez fizessem inveja às melhores histórias de pescador. Nossos pit boys, daquela época, eram alguns alunos aventureiros, românticos e mais corajosos que, durante a semana e mais freqüentemente nos fins de semana, arriscavam um passeio noturno até Angra, onde chegavam depois de vencer um empoeirado e íngreme caminho pelo Morro de São Bento, ou pelo “AÉREO” como todos conhecemos. ESCOLA NAVAL Decorridos 2 anos, a maioria venceu a 1ª etapa da carreira, rumo a tão sonhada posição de Aspirante da Escola Naval. Alguns poucos, por diferentes razões, ficavam para trás, tendo que realizar o curso em três anos. Mas foi nessa época, na Escola Naval, que começamos o contato e alcançamos os primórdios da informatização, no saudoso computador IBM -1130, que ocupava uma sala inteira no CPD e com os “cartões perfurados”, onde registrávamos nossos primeiros programas, iniciados com o “BARRA BARRA JOB T” e o “BARRA BARRA CHECK LIST”. Como imaginar a Ilha de Villegagnon, àquela época, gozando das facilidades advindas do estágio em que hoje se encontra essa extraordinária invenção chamada computador? Hoje, apenas um e-mail acompanhado de uma foto, devidamente escaneada, teria evitado as decepções resultantes daqueles encontros kamicases/suicidas provenientes de ligações telefônicas, recebidas durante os serviços de Chefes de Dia, onde as palavras e a voz eram os únicos instrumentos de que dispúnhamos para formar a imagem do que nos aguardava. Muito embora possamos considerar que essa vantagem informática de hoje, teria sido, naquela época, muito mais a favor delas do que nossa. Mais quatro anos juntos. Mais maduros, mais experientes. Mas ainda jovens, muito jovens. Prontos a lutar pelo nosso ideal. Finalmente a tão sonhada formatura, GUARDA-MARINHAS de 13 de DEZEMBRO de 1979.Depois, OFICIAIS – em AGOSTO – 1980.E assim fomos, posto a posto, comissão a comissão, desafio a desafio, mas sempre singrando nossos mares em derrotas seguras e precisas......Hoje, decorridos trinta anos de praia, ou melhor, de mar, temos maturidade suficiente para nos sentirmos responsáveis por tudo aquilo que assistimos, ou até mesmo que participamos no cenário nacional. Temos representatividade histórica, política e social na formação de nossa sociedade, seja na vida civil, como cidadãos comuns ou na MB como militares, instrutores ou titulares de OM, onde somos responsáveis pela formação de pessoas, dotando-os não só de capacidade intelecto-profissional, mas também do sentimento de amor à pátria e da perfeita noção do que significa servi-la. Os insuficientes recursos destinados às nossas necessidades profissionais certamente que nos entristece, pois comprometem a nossa Força, e em conseqüência nossa missão constitucional. Porém tal fato, nunca será suficiente para esmorecer nossa vontade e nos desviar do rumo traçado. Portanto, para nos da Turma Alexandrino, falar de Marinha, não significa traduzir fatos em anos ou décadas, pois na verdade, já se passaram séculos desde que o primeiro navio deixou o primeiro porto. O culto a nossos antepassados, como o do nosso Patrono, indica nossas esperanças futuras, pois quem tem tradição jamais estará sob nova direção. Grandes decisões nos alcançam nesse momento. Aos que já desembarcaram, ou ora desembarcam, resta a certeza do dever cumprido. Aos que permanecem a bordo e aos indicados para comandos, direções e Comissões Permanentes no Exterior, antecipamos-lhes sucesso, pois atributos profissionais não lhes faltam. O caminho do almirantado urge. Nossa pernada até aqui foi longa, longa o suficiente para que a vida permitisse o desembarque prematuro de alguns companheiros, rumo a portos ainda não “carteados” por nós, mas que certamente passaremos nossas espias um dia. Cruz, Faraday, Aguieiras, Silva Lima, Anselmo, Sampaio Lopes, Padilha, Melo e Lopes, vocês terão sempre lugares reservados em nossa formatura, a vocês nossas eternas lembranças. Aos amigos Alexandrinos que, precocemente, optaram por atuar em atividades extra-portaló, prestamos nossas sinceras homenagens por suas presenças vibrantes e colaborações oportunas. Vocês são o testemunho de que o NÒ MARINHEIRO QUE NOS UNIU, nessa Enseada jamais será desfeito, onde quer que estejamos. As pessoas que acreditaram no nosso potencial e que são responsáveis pela nossa formação de marinheiros e de cidadãos brasileiros, rendemos nossas justas homenagens. Aos nossos mestres e instrutores presentes ou não, nesta cerimônia, fica a certeza de que seus ensinamentos produziram, no convívio com nossos pares e subordinados, ao longo de nossa carreira, o mesmo reconhecimento que ora lhes registramos. Especialmente rendemos homenagens ÀQUELAS que, abdicando muitas das vezes de suas próprias aspirações, optaram por nos acompanhar, proporcionando, em nossas ausências, a necessária segurança de nossos filhos. Para elas, nossas companheiras, todo o nosso amor e consideração. Ao Sr. Capitão-de-Mar-e-Guerra Cantuária, Comandante do CN, e sua tripulação, agradecemos o apoio e a oportunidade de voltarmos ao marco zero da nossa longa jornada. Aos alunos do Colégio Naval, aqui representados (ainda que carteados), tenham a certeza de que os momentos difíceis aqui vividos, transformar-se-ão, ao longo do tempo, em prazerosas lembranças, a serem revividas. Com muita honra registramos a presença de ........ ENCERRAMENTO: As lembranças do passado, que pertencem a todos nós, entoam o Grito de Guerra “QUIRICOMBA, ZEPELIM..........” que nos fazem agradecer pela oportunidade que temos hoje de solenemente preservarmos e perpetuarmos nas nossas memórias a passagem pelos 30 anos da TURMA ALEXANDRINO. ALEXANDRINOS!Fomos forjados na adolescência nesta instituição que, a partir de 1974, nos mostrou os rumos a seguir e os sonhos a serem realizados, a despeito de todos os temores, dificuldades e incertezas, da idade e do tempo, que chegam com eles......... Éramos meninos com vontade de ser marinheiros. Hoje somos marinheiros. Amanhã, seremos marinheiros com vontade de ser meninos. Ao dizermos Marinha, o fazemos com amor, e ao pronunciá-la, o fazemos com o coração. Essa é a entoação de nossas vidas! Posso te dar a carta náutica Mas a derrota que nela traça entre tantos rumos Não Posso te dar as tábuas de marés Mas a leve emoção de cavalgar onda e onda após onda Não Posso te dar a rosa e o timão Mas o desequilíbrio concertante ao balanço de bordo Não Posso te dar frios conhecimentos Mas o que se acalenta no convívio amoroso do mar Não Assim, como nessas palavras líricas, da poesia “METANÁUTICA” de GEIR CAMPOS, aprendemos na prática, ao longo da carreira e da vida, que um navio tem “ALMA”, da mesma forma que, passados 30 anos da nossa primeira atracação, aqui nesta inesquecível enseada, sabemos que a TURMA ALEXANDRINO tem “ALMA” e “PERSONALIDADE". Esse binômio espiritual e íntimo estará sempre presente, não apenas na nossa breve passagem pela Marinha, mas também no futuro, em qualquer lugar que esteja içado no tope de qualquer mastro o sinal PAPA ALFA, sempre acesso, tremulando, forte e mantido por incontáveis recordações num mecanismo cíclico e regenerador. PAPA ALFA. |